segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Este post é dedicado aos meus colegas

No Centro onde eu trabalho, as enfermeiras não fazem um cú.
Ainda assim, acham-se super atarefadas e cheias de trabalho.

Se fizessem uma manhã num dos nossos Serviços, eram, muito provavelmente, internadas nos Cuidados Intensivos.

Aqui eu tenho elevadores. Quatro auxiliares. Poucos doentes. Muito tempo.
Sabem aquela intervenção pateta que aprendemos na escola?

Adequar dieta de acordo com as preferências do utente.

E que depois chegamos ao hospital e as enfermeiras riem-se da nossa ingenuidade?
E descobrimos que não é possível?

Aqui é. Há um chefe de cozinha. Só temos de lhe dizer que o senhor X não gosta de cebolas.

Para muitos colegas meus, a situação é diferente.

Não têm elevadores. E têm doentes pesados.
Usam a força do corpo e magoam as costas.

Têm doentes dependentes.
Que precisam de banho. De fralda. De creme. De alguém que os vire na cama.

Têm muitos doentes. Pouco tempo. E poucas ajudas.
Mas mesmo assim, fazem.

Uma vénia para eles.

Ó pá!

Uma pessoa levanta-se às seis e meia da manhã para ir trabalhar.
Vai à casa de banho fazer chichi e lavar os dentes. O que é que encontra no caminho?
O super-violador de boxers.
Pior. O super-violador de boxers aos bonecos!

Por que raio é que eu não sou assediada por tipas destas?
Por que é que só me saem lingrinhas ou agentes imobiliárias com excesso de peso?
Alguém me explica?

sábado, 6 de novembro de 2010

Companheiros

No fim-de-semana passado, o G dizia que, por esta altura, eu já ia estar rodeada de novos amigos ingleses.
O Peter. A Sally. A Jennifer.

A verdade é que passei o Sábado sozinha.
Sozinha não. Com uns amigos. Mas esses já vocês conhecem.
Chamam-se Pão, Bolachas e Chocolate.


Os ingles são snobs. Assino por baixo.
São simpáticos comigo, a maior parte das vezes. Mas é só por cortesia, parece-me.
Estão muito longe de ser afáveis e acolhedores. Tirando os velhinhos do Centro onde trabalho.

Ontem mantive uma conversa de mais de dez minutos com um senhor.
Pensei que fosse uma excepção à regra. Uau! Um inglês tão falador como eu.

Ele contou-me que ia à igreja. Eu disse-lhe que era enfermeira.
Falámos de animais. Ambos vegetarianos.
E blábláblá.

Até que ele começa com uma conversa...
I like you. Really. Can I take a picture of you?
Se calhar não era nada, mas eu que sou medricas, vi logo um super-violador-com-as-garras-de-fora.

Hoje de manhã sentou-se à minha beira para tomar pequeno-almoço. Dei-lhe good morning com a pior cara que pude e enfiei os olhos num livro.
Convidou-me para ir ao Stonehenge e eu menti-lhe ao dizer que já tinha planos com o meu boyfriend.

Em vez de ir ao Stonehenge fui comprar um frigorífico.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Enfermeira outra vez

Hoje, o T. teve uma crise.
Atirou-se da cadeira abaixo.
Começou a falar com ninguém numa língua que só ele percebe.

A I. tem 96 anos, uma insuficiência renal e um bigode capaz de competir com o do meu pai.
Dei-lhe bom dia e ela respondeu-me com um sorriso amoroso de um só dente.

Os velhinhos cuidam muito bem de mim.
Babam-se. Dizem coisas tontas. Riem-se sem motivo nenhum.
Fazem-me esquecer que o meu inglês é péssimo.
Vão morrer em breve. Como a senhora de ontem, a quem foram feitas manobras de reanimação inúteis.

As saudades que eu tinha disto...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A minha vida aqui é assim:

Nos últimos dois dias deitei-me às nove da noite.
Chego à cama e no minuto a seguir não adormeço. Morro.


Abri uma conta para poder alugar uma casa. O meu saldo deve dar vontade de rir aos senhores do banco. Quarenta e nove libras.

Sinto-me uma burra.
Metade do inglês passa-me ao lado.
Há pessoas extremamente gentis. Que dizem que o meu inglês is excellent.
Há outras que reviram os olhos quando me engano na gramática das frases.

Hoje, na imobiliária, fui assediada.
Darling isto. Honey aquilo.
Apertei-lhe a mão em forma de agradecimento. Cheirou-me o pulso.
Segundo ela, o meu cheiro era lovely e o meu perfume very feminine.

Hoje tive sete horas de formação seguidinhas.
Do pouco inglês que apanhei deu para perceber que muitas das técnicas que aprendi na escola são arcaicas.
Trabalho, oficialmente, num hotel de cinco estrelas para a terceira idade. Bibó luxo!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Meus amigos...

J., morri de riso com isto.

(...) E arranja-me uma inglesa :p E arrnanja uma casa com sitio pa eu ficar uns dias (chama-se a isto "auto-convite" :p).


M., morri de pranto com isto.



Ai que emigranta, ó!


Obrigada aos dois. Que rir e chorar fazem ambos falta.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Começa bem, começa...

Chego ao comboio. Liga-me a minha mãe.

- Blábláblá.
- Sim, sim. Correu bem. E tu, como estás?
- ...
- Má?
- Ana... Eu só quero que sejas feliz, filha... Que corra tudo bem.
- Mãe, não chores. Se não vou chorar tamém...

A minha mãe não é de dizer estas coisas. Sei perfeitamente que o sente, mas dizê-lo? Nunca.

Comecei-me a rir e mandei-lhe beijinhos e desliguei o telemóvel.
Depois fui a chorar até Waterloo.





Obriguei-me a parar com a choradeira que-é-sempre-a-mesma-coisa-e-já-mete-nojo-pá.

E pronto.
A Inglaterra é muito bonita :)