A A. é pele e osso.
Uma velhinha inglesa de 68 anos, que mais parece ter 80.
Fiz noite e ela não estava bem.
Prostrada, mas reactiva a estimulação verbal. Orientada.
Normotensa. Ligada a telemetria. Traçado de base sinusal, normocárdica. Saturava a 98% com oxigénio a 3,5L/min por cânula nasal.
Os membros espásticos.
Segurou-me o braço com tanta força, quando a virei para trocar a fralda.
- A., do you need a painkiller?
- Oh. Yes, please.
Vejo a folha de terapêutica. Analgesia de resgate: paracetamol.
Ligo ao médico de urgência. Sou autorizada a dar morfina.
Limpa e posicionada. Medicação administrada.
A A. agradece e até sorri, de olhos fechados.
No quarto, há um cadeirão, onde a A. se sentava, quando estava melhor.
Cubro-o com um lençol.
Encolho-me ali. Fecho os olhos, na tentativa de amenizar o sono que se abate sobre mim depois das três da manhã.
De vinte em vinte minutos, a A. acorda. Incapaz de usar a campainha. Grita por água.
E eu dou-lhe. Copos e copos. 1900 mililitros no total.
Numa das vezes, em que ela fecha os olhos, e eu estico-me no cadeirão, penso. Morrer sem ninguém por perto deve ser muito muito triste.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Querido espelho da Stradivarius:
Obrigada.
Andava há dois dias em formação com enfermeiras chiques e não me tinha apercebido de que estou com um bigode maior que o do meu pai.
Fizeste-me ir ao Jumbo, de propósito, gastar quase cinco euros numa pinça miserável!
Está uma mulher de soutien e calças de pijama, na casa de banho da pousada da juventude, a arrancar o bigode, quando entra um indivíduo do sexo masculino, loiro albino, com todo o ar de estrangeiro, e fica congelado a olhar para mim. Não diz uma palavra.
Viro-me de frente para ele.
- Ladies washroom.
Sorrio. (Sou mesmo uma bomba latina).
Atabalhoado, no meio de tantos I'm so sorry e olhos pousados no meu soutien preto rendado, dá meia volta e desaparece.
Continuo a arrancar pêlos do buço.
A rever mentalmente a medicação utilizada para alívio dos sintomas mais frequentes num doente terminal.
Amanhã tenho avaliação.
Já disse que adoro cuidados paliativos?
domingo, 2 de dezembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
O curioso caso de Rita Martins
Cada vez estou mais bebé.
A cada dia que passa, preciso mais do colo da minha mãe.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Tipo, é assim...
O meu blog é um blog sério.
Por isso vou falar de coisas sérias.
Tipo, a minha tensão pré-menstrual.
Há uma semana que em vez de mamas, tenho dois calhaus ao peito.
O meu humor anda eufórico. Por isso fecho-me em casa.
Aterro no sofá e tapo-me até às orelhas. Ouço músicas que me fazem chorar até a cabeça começar arder.
Sinto-me um bisonte de gorda.
Hoje andava no serviço. Em vez de carregar um útero, carregava um halter de cinco quilos no baixo ventre.
É lindo estar a dar banho a um doente e menstruar. Assim de repente.
Fui ao piso 1 buscar pensos higiénicos ao armário de material. O meu chefe, que é tão gay e eu adoro, fica a olhar para mim.
- O que é? Já não se pode menstruar neste hospital?
- Ai, menstruação... Que nojo.
Tomei butilescopalamina.
Que não fez nada.
Depois falei com o meu amor ao telefone e fiquei melhor.
Por isso vou falar de coisas sérias.
Tipo, a minha tensão pré-menstrual.
Há uma semana que em vez de mamas, tenho dois calhaus ao peito.
O meu humor anda eufórico. Por isso fecho-me em casa.
Aterro no sofá e tapo-me até às orelhas. Ouço músicas que me fazem chorar até a cabeça começar arder.
Sinto-me um bisonte de gorda.
Hoje andava no serviço. Em vez de carregar um útero, carregava um halter de cinco quilos no baixo ventre.
É lindo estar a dar banho a um doente e menstruar. Assim de repente.
Fui ao piso 1 buscar pensos higiénicos ao armário de material. O meu chefe, que é tão gay e eu adoro, fica a olhar para mim.
- O que é? Já não se pode menstruar neste hospital?
- Ai, menstruação... Que nojo.
Tomei butilescopalamina.
Que não fez nada.
Depois falei com o meu amor ao telefone e fiquei melhor.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Sem título
O J. era um doente conhecido do serviço.
Já lá tinha estado duas ou três vezes. Sempre com infecções respiratórias.
Desta vez, deu entrada no nosso serviço de urgência a saturar a 73%.
O J. perdeu a capacidade de falar.
Os olhos já estavam vidrados.
Máscara de Venturi. Oxigénio a 15 litros. Saturações nunca superiores a 90.
- Doutora. Se este homem descompensa... É para reanimá-lo?
- Não tinha pensado nisso... Tenho de falar com a filha...
O J. passou a DNR - do not resuscitate.
E há uns dias, finalmente, partiu.
Cansado do esforço respiratório, o coração começou a bater devagarinho. Até parar.
Não foi no meu turno.
Fui ao Hospital, fazer a minha entrevista de avaliação de desempenho.
E lá estava a filha na Recepção.
Fui ao encontro dela.
Ela abraçou-me. Agradeceu-me.
Disse que a minha equipa foi fantástica.
Disse que, num momento tão difícil, se sentiu entre amigos.
E o gesto daquela mulher desolada, fez-me sentir o peito tão cheio.
Fez-me sentir tanto orgulho.
Da equipa que trabalha comigo.
De mim.
Já lá tinha estado duas ou três vezes. Sempre com infecções respiratórias.
Desta vez, deu entrada no nosso serviço de urgência a saturar a 73%.
O J. perdeu a capacidade de falar.
Os olhos já estavam vidrados.
Máscara de Venturi. Oxigénio a 15 litros. Saturações nunca superiores a 90.
- Doutora. Se este homem descompensa... É para reanimá-lo?
- Não tinha pensado nisso... Tenho de falar com a filha...
O J. passou a DNR - do not resuscitate.
E há uns dias, finalmente, partiu.
Cansado do esforço respiratório, o coração começou a bater devagarinho. Até parar.
Não foi no meu turno.
Fui ao Hospital, fazer a minha entrevista de avaliação de desempenho.
E lá estava a filha na Recepção.
Fui ao encontro dela.
Ela abraçou-me. Agradeceu-me.
Disse que a minha equipa foi fantástica.
Disse que, num momento tão difícil, se sentiu entre amigos.
E o gesto daquela mulher desolada, fez-me sentir o peito tão cheio.
Fez-me sentir tanto orgulho.
Da equipa que trabalha comigo.
De mim.
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