segunda-feira, 19 de março de 2012

De como brindar um pai com um orçamento miserável

Quando o meu pai fez anos, eu estava na Guiné e consegui rede no telemóvel para lhe ligar. Acho que ele gostou da prenda.

Acontece que o meu pai não é homem de prendas.
Há uns tempos comprei-lhe um perfume caro. Todos os dias usa uma água de colónia foleira do Continente.
E o Yves Saint Laurent continua no cesto da casa-de-banho. À espera de algum dia importante, tipo o dia do meu casamento.

Hoje é o dia do pai e decidi comprar alguma coisa que ele use, realmente.
Pensei numa caixa de chocolates que ele ia adorar do fundo do coração. Mas sendo eu enfermeira e ele diabético achei melhor não.

Comprei uma garrafa de vinho.
Escrevi um texto giro em cartolina. Usei duas fitinhas - daquelas que vêm na parte de dentro da roupa, para facilitar pendurá-las nos cabides - et voilá.



O bom de ir ao Continente - e não a uma loja gourmet, ou lá como se escreve - é que há vinhos para todas as carteiras.

E o meu pai é o melhor de todos.

domingo, 18 de março de 2012

quinta-feira, 15 de março de 2012

Eu e os velhos (ou post demasiado longo para alguém ler)

No outro dia, chego ao lar de botas de tacão alto.
A A., de quem já falei outras vezes, à entrada.

No corredor só se ouve o toc-toc dos meus tacões.
Ela olha para mim de alto a baixo.

- Ai! Onde vais tu, toda tirité?
- Ahahah! Bom dia, A.. Vim trabalhar...
- Com essas galochas mais parece que vais montar a cavalo. Vê lá se calças uns sapatos de jeito, mas é.


A A. e o seu bom-humor matinal.
Chamem-me tolinha, mas eu a-do-ro.

Os outros velhos, quando me vêem com ela, de braços dados, olham-me de esguelha. Ela sempre a reclamar. Eles reviram os olhos, não lhe ligam nenhuma, ainda me sussuram não sei como a menina têm paciência...


Eu tenho paciência, eventualmente, porque não convivo com a A. 24 horas por dia. Nem trabalho no lar a regime de oito-horas-por-dia-cinco-dias-por-semana. Deve ser por isso.

A A. consegue ser extremamente desagradável com os outros residentes. Bem sei.

Uma senhora com Alzheimer, perguntou-me no outro dia:
- Menina, a que horas passa a carreira?
A A. olha para ela:
- Que carreira? Aqui num passa carreira nenhuma, ó. Deixa de ser tola.


Há um senhor no lado das enfermarias que grita a manhã toda.
A A. volta e meia imita-o. Depois acrescenta:
- Tanto grito, tanta merda. 'Tou cheia disto, foge...


Tento explicar-lhe que os outros residentes têm problemas de memória, de orientação, de fala, de força. Mas nada a comove, a não ser os seus problemas.
Tento pregar-lhe um bocadinho de compreensão. De solidariedade para com os outros.
Mas, num piscar de olhos, sou obrigada a desviar a conversa porque um senhor quer fazer xixi.

- A., preciso de ajudar este senhor a ir à casa de banho.
- Vai, vai. E segura-lhe na mangueira, também.


Hoje fui de sapatilhas.
Passo pela A. Ela reclama.
Dou-lhe dois minutos de atenção. Que é quanto, geralmente, preciso para fazê-la rir.
Mas hoje ela nem repara nos meus sapatos, nem nos brincos, nem em nada.
- Anda vai-te embora. Deixa-me em paz.


Fui e voltei ao fim de uma hora. Agora com mais tempo.
- Então A.. Que se passa? Hoje não me podes ver nem pintada... 'Tás zangada comigo? [Pediu-me há uns tempos para tratá-la por tu; você é para as madames. É A. abaixo, A. acima, palavras dela]
- Ó. Outra vez tu?
- Fogo. 'Tás mesmo zangada comigo...
- Ó, não é só contigo. É contigo e com meio mundo.
- Então? Conta-me lá.
- Esta canalha, que só faz asneiras...
- Como assim? Conta-me...
- Olha. A minha neta. Dezoito anos. Conheceu um gajo e olha. Três-vezes-nove-vinte-e-sete. [na primária, eu aprendi esta expressão para o roubar, não propriamente para o truca-truca]
Não digo nada. À espera que ela continue.
- 'Tás a ver. Por isso tu tem juizinho...


A neta da A. está grávida.
Ouvia-a falar durante 15 minutos. Depois acompanhei-a até ao refeitório.

- Pronto A.. Estás entregue. Bom-apetite.
- Obrigada filha.
- Dê-me lá um abraço. Hoje foi muito má para mim.
Ela riu-se, quase contrariada. Deu-me um abraço. - Que Deus, nosso Senhor, te abençoe.


E eu fiquei contente. Não por este acto de bondade me ter sido dirigido a mim.
Mas por perceber que a A., lá no fundo, no fundo, também consegue sentir coisas boas.

quarta-feira, 14 de março de 2012

I'm a lady

A concentração de hormonas no meu corpo está a atingir níveis perigosos.

Os meus mamilos estão capazes de furar qualquer camisola que eu vista.
O meu apetite pirou de vez.

As bolachas maria têm mais interesse do que as tarteletes de chocolate.
O meu lanche inclui arroz.

Ser mulher é lindo!

sábado, 10 de março de 2012

O que é que me faz ir ao ginásio day after day after day?

Achar que ainda é possível vir a ter uma barriga destas...


O cúmulo da contraproducência

É ir ao ginásio, dar o litro para queimar quinhentas calorias, chegar a casa e comer duas fatias de cheesecake.

E ainda sonhar, um dia, ser como a Pina Bausch.


PS: Quase consigo um post da categoria do Aflito, que escreve os absurdos mais engraçados que eu já li na blogosfera.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres


A partir de hoje, vamos ser mais felizes.
Vamos sorrir mais. Abraçar mais. Perdoar mais. Passar mais tempo juntas.

Vamos ser mais tolerantes.
Com a velha sem força que atrasa a fila do supermercado.
Com a vizinha punk do segundo esquerdo.
Com a loira boazona do nosso trabalho.

Vamos ser menos invejosas. Menos hipócritas.
Vamos ser menos tamanhos de roupa. Menos estrias, celulite e varizes.
Menos rugas e manchas de pele.

Vamos à luta.
Para sermos menos tapadas.
Menos caladas.
Menos apedrejadas.
Menos queimadas vivas.
Menos vendidas.

Um bom dia para vocês. Senhoras, meninas, mulheres :)