Ontem, disseste-me tudo aquilo que eu queria ouvir.
Todas as minhas cavidades cardíacas entraram em fibrilhação. E eu senti que podia morrer de tanta felicidade.
Tu tão perto de mim. E a sala cheia de gente.
domingo, 23 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Foi em Abril de 2010
Que comecei a fazer dieta. À bruta.
Julho do mesmo ano. Cinquenta e sete quilos e meio. Quase dez perdidos, portanto.
Julho do ano seguinte. Doze quilos em cima.
Um ano.
Um ano descompensada. Em que que a vida passou por mim. E eu tenho a sensação de que não fui eu a vivê-la.
Sabem...? É como se me visse num filme...
Durante um ano, eu cometi atrocidades alimentares.
Comi tanta coisa que nem dá para acreditar.
Se não estivesse bulímica, em vez de chegar aos setenta, teria chegado aos cem quilos.
Era capaz de, num dia de folga, comer e vomitar umas dez vezes? Vinte vezes?
E por mais que comesse, o vazio permanecia lá.
O vazio que não era preenchido com comida.
Agosto de 2012.
Ainda não curada.
Cinco meses em dieta - dois anos a recuperar dela.
O meu estômago tem memória dos dias em que a sua elasticidade foi levada ao limite.
Se eu comer uma pizza inteira, sei que vou vomitar parte dela. O meu cérebro reconhece quando o meu estômago distende para além daquele ponto. O resto desencadeia-se rápido demais e eu perco o controlo.
Mas nem tudo está perdido. Tornei-me esperta. Em vez de uma pizza inteira, como quatro fatias e deixo-as transformarem-se em gordura no meu corpo. Tento não pensar muito nisso.
Tenho manias.
Só bebo coca-cola zero ou diet.
Uso sempre adoçante no café.
O leite, os iogurtes e o queijo têm de ser magros.
Engano a fome com cigarros.
Compro daquelas gelatinas que só têm dez caloria por pote.
Durante muito tempo, perdi a vontade de me pesar. De me medir. De ter noção do quão grande estava.
Ainda há uns meses, quando fiz a avaliação física no ginásio de Portimão, pedi ao professor para não me dizer valores. Nenhuns.
Mas há coisa de dois dias, ganhei coragem. Subi para a balança do meu serviço.
Olhei em frente, sem coragem de encarar um número.
A balança do meu serviço está completamente descalibrada e diz que eu peso 56,8 quilos.
Eu até gostava que fosse verdade.
O simples facto de estar abaixo dos 60 deixar-me-ia contente.
Acontece que eu não me sinto mais magra. Nem quando os meus colegas de trabalho me lembram disso.
Eu bem olho ao espelho. Mas continuo a ver ancas demasiado salientes. Joelhos demasiados cheios. Celulite na parte de trás das coxas...
Respiro fundo.
Hoje é o último dia de Agosto de 2012.
Nos últimos cinco meses tenho sido feliz ao ponto de não caber em mim. Ao ponto de, às vezes, nem me considerar merecedora de tanta alegria.
Ponho-me a pensar que o caminho até aqui não foi propriamente simples. Mas se não fosse esse o caminho, eu não teria vindo cá parar.
Ou tinha? :)
Julho do mesmo ano. Cinquenta e sete quilos e meio. Quase dez perdidos, portanto.
Julho do ano seguinte. Doze quilos em cima.
Um ano.
Um ano descompensada. Em que que a vida passou por mim. E eu tenho a sensação de que não fui eu a vivê-la.
Sabem...? É como se me visse num filme...
Durante um ano, eu cometi atrocidades alimentares.
Comi tanta coisa que nem dá para acreditar.
Se não estivesse bulímica, em vez de chegar aos setenta, teria chegado aos cem quilos.
Era capaz de, num dia de folga, comer e vomitar umas dez vezes? Vinte vezes?
E por mais que comesse, o vazio permanecia lá.
O vazio que não era preenchido com comida.
Agosto de 2012.
Ainda não curada.
Cinco meses em dieta - dois anos a recuperar dela.
O meu estômago tem memória dos dias em que a sua elasticidade foi levada ao limite.
Se eu comer uma pizza inteira, sei que vou vomitar parte dela. O meu cérebro reconhece quando o meu estômago distende para além daquele ponto. O resto desencadeia-se rápido demais e eu perco o controlo.
Mas nem tudo está perdido. Tornei-me esperta. Em vez de uma pizza inteira, como quatro fatias e deixo-as transformarem-se em gordura no meu corpo. Tento não pensar muito nisso.
Tenho manias.
Só bebo coca-cola zero ou diet.
Uso sempre adoçante no café.
O leite, os iogurtes e o queijo têm de ser magros.
Engano a fome com cigarros.
Compro daquelas gelatinas que só têm dez caloria por pote.
Durante muito tempo, perdi a vontade de me pesar. De me medir. De ter noção do quão grande estava.
Ainda há uns meses, quando fiz a avaliação física no ginásio de Portimão, pedi ao professor para não me dizer valores. Nenhuns.
Mas há coisa de dois dias, ganhei coragem. Subi para a balança do meu serviço.
Olhei em frente, sem coragem de encarar um número.
A balança do meu serviço está completamente descalibrada e diz que eu peso 56,8 quilos.
Eu até gostava que fosse verdade.
O simples facto de estar abaixo dos 60 deixar-me-ia contente.
Acontece que eu não me sinto mais magra. Nem quando os meus colegas de trabalho me lembram disso.
Eu bem olho ao espelho. Mas continuo a ver ancas demasiado salientes. Joelhos demasiados cheios. Celulite na parte de trás das coxas...
Respiro fundo.
Hoje é o último dia de Agosto de 2012.
Nos últimos cinco meses tenho sido feliz ao ponto de não caber em mim. Ao ponto de, às vezes, nem me considerar merecedora de tanta alegria.
Ponho-me a pensar que o caminho até aqui não foi propriamente simples. Mas se não fosse esse o caminho, eu não teria vindo cá parar.
Ou tinha? :)
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Adoro malucos
- Enfermeira, não consigo dormir com estas calças.
- Sr. M., não posso tirar-lhe o cinto. Eu sei que vai tentar levantar-se. Vai cair. E depois a responsabilidade é minha. E depois?
- Não faz mal. Eu tenho uns amigos que tratam disso.
- Sr. M., não posso tirar-lhe o cinto. Eu sei que vai tentar levantar-se. Vai cair. E depois a responsabilidade é minha. E depois?
- Não faz mal. Eu tenho uns amigos que tratam disso.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
No Algarve
Há muitas pessoas.
E muitas pessoas… diferentes, chamemos-lhes assim.
Pessoas que saem de casa e não têm vergonha de mostrar quem
são.
Que estão dispostas a levar com olhares. Gozo. Reprovação.
Mas ainda assim, preferem não fingir.
Eu bebo um bocado e fico insuportável.
Falo com toda a
gente. Implico, faço rir, rio-me, danço até o corpo não aguentar mais.
Ontem, na fila para um bar, vi aquilo que me pareceu ser um
rapaz de 15 anos.
Falamos um bocadinho. Como devem imaginar, a minha taxa de
alcoolémia na altura impediu-me de gravar o diálogo como habitualmente faço.
Só me lembro de qualquer coisa como:
- E tu estás a pensar que eu sou um rapaz, não é?
Olhei-lhe para o peito e vi que tinha maminhas.
Ela reparou na minha cara de confusa. Olhei para ela, ri-me,
abraçamo-nos.
Ela voltou à mesa dos LGBT. Uma mesa cheia de aves raras.
Que saem de casa sem medo de ser quem são :)
quinta-feira, 14 de junho de 2012
E partiu
O P.
De quem falei no post anterior. Morreu ontem à noite.
Estavamos na passagem de turno.
O monitor registou uma bradicardia de 40. 32. Voltou aos 60. 50. Assistolia.
A minha colega passava o turno.
Levantei-me e fui ao quarto.
O corpo branco.
Já sem dificuldade respiratória. Já sem pulso na jugular.
Fechei-lhe os olhos.
O meu trabalho deixa-me ver muita coisa.
O início e o fim da vida.
E tudo o que acontece no meio.
De quem falei no post anterior. Morreu ontem à noite.
Estavamos na passagem de turno.
O monitor registou uma bradicardia de 40. 32. Voltou aos 60. 50. Assistolia.
A minha colega passava o turno.
Levantei-me e fui ao quarto.
O corpo branco.
Já sem dificuldade respiratória. Já sem pulso na jugular.
Fechei-lhe os olhos.
O meu trabalho deixa-me ver muita coisa.
O início e o fim da vida.
E tudo o que acontece no meio.
domingo, 10 de junho de 2012
Olho para o P.
O corpo é frágil, magro.
A língua é uma pedra de tão desidratada.
Os olhos reviram
Os rins falham.
Tem espasmos.
Hoje aspirei-o.
Só porcaria a dificultar-lhe a respiração. E ele sem conseguir tossir.
O P. já não come.
Os meus colegas queriam entubá-lo.
Felizmente o médico não concordou.
Alimentar um corpo que está praticamente morto faz-me confusão.
Mas isso sou eu, que ao que parece, sou cruel e quero matá-lo à fome.
Penso no fio que o mantém aqui.
No fio que nos mantém aqui. A nós todos.
Como é frágil.
E apesar disso, no meu trabalho manipulamos o fio, muitas vezes com sucesso.
Já disse que adoro ser enfermeira?
E que no fim do primeiro ano da faculdade não me via a fazer isto?
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